Passa a palavra

terça-feira, abril 18, 2006

Mais insónias

São cinco e tal da manhã. Amanhã tenho aulas. Acho que não vou dormir hoje. Já me deitei e fechei os olhos, mas só me mexia de um lado para o outro da cama e pensava em ti. Agora estou aqui. Já joguei, vi TV, mas começou o Televendas e na Cabovisão só dão programas repetidos ou então os canais estão a "dormir", ao contrário de mim.
Isto é alguma doença? Os olhos nem me picam de sono como dantes. Estou aqui desperto, como se os outros é que fossem malucos em estarem a dormir.
A noite torna-se dia e o dia é noite.
Daqui a nada é de dia, as horas voam.
Hoje vou acordar, de olhos já abertos.

terça-feira, abril 11, 2006

Regresso

Olho para aquela casa azul. Tem a madeira rasgada pelo vento e os cabos de aço que a seguram oscilam quando a tempestade se avizinha. À entrada estão dois vasos, cada um com duas rosas murchas, mesmo por cima dos degraus que se infiltram pela porta de cor escura. A casa está envolta de um ambiente melancólico e monótono, está triste, abandonada, amarrada por aqueles fios metálicos, sente-se estranha, como se tivesse sido arrastada até àquele ambiente desconhecido.

Depois de me aproximar um pouco, reparo na chaminé que fumega intensamente. Curioso, decido entrar...

Ao subir os degraus da entrada, toco na pétala duma das rosas, ela cai instantaneamente, como se fosse um sinal do que viria a acontecer: entro e deparo-me com um corpo quase caído em cima de uma cadeira suja e frágil. Tem as mãos no cabelo negro e crespo, que lhe cobre a face. Usa um vestido branco que está colado à sua pele bem desenhada. Os cotovelos estão apoiados nos joelhos e notam-se as articulações da sua espinha. Tem uma imagem desfocada, triste e bela.

Dou um passo que faz chiar uma tábua do chão e, espontaneamente, o corpo levanta-se sobre um movimento suave e subtil. Tem um olhar profundo e claro, os olhos são verdes. Os lábios estão secos de estarem sobre o seu braço. Tem sardas sobre o nariz e as bochechas estão da cor das brasas da lareira - a razão do fumo intenso.

Concentro-me nos seus olhos húmidos. Só penso no que poderá estar a pensar de mim e, sem que tenha tempo de pensar de novo, solta a voz e diz: - Que bom que chegaste, estava preocupada. E solta uma lágrima...

segunda-feira, abril 10, 2006

Insónias

Não consegui fixar o sono dentro do meu corpo. Não dormi. Parecia o filme que estava a ver. Ela não dormia, nem ele. Depois juntavam-se à noite, como dois amantes, mas que não amavam. No fim ele deu-lhe o primeiro e único beijo, o beijo de despedida. Nunca mais se viram, e acabou assim. Pensei em ti..
Mudei vezes sem conta de canal. Continuei nesse zapping durante mais uma hora e o dormir não aparecia.
Estava ali estendido na cama, a imaginar fantasias entre nós. Quase que falava sozinho.
Até que enfim... adormecido e repousado, embrulhado nos lençóis de flanela. O relógio marcava 4:00 horas.
Antes de os olhos começarem a pesar, ainda tive um último reflexo. Como foi belo aquele filme. Ele era uns 30 anos mais velho que ela. Começaram uma amizade tão estimulante, naqueles bares japoneses, com Jazz lá ao fundo, a beber um whisky. Conversas indirectas e bem estruturadas. Começaram uma relação amorosa, sem afecto físico. Ela era casada e ele também. Nunca chegaram a trair os seus cônjugues já que as suas relações estavam mortas de tédio há meses. Só no fim, naquele beijo em que ambos sabiam que jamais se iria repetir. Aí as suas almas completaram-se de emoção e carinho.
Mas não aconteceu mais. Foi um único e curto beijo.
Acabou assim.
Adormeci.

sexta-feira, abril 07, 2006

Coisas

"Mata-te a estudar e serás um cadáver culto."

"Os homens que não têm sorte com as mulheres não sabem a sorte que têm."

"Eu cavo, tu cavas, ele cava, nós cavamos, vós cavais, eles cavam. Pode não ser bonito, mas é profuuundo."

"A arte preocupa-se unicamente em exprimir, e não com o que se pretende exprimir."

Contradição: "Para desligar o computador, clica-se no menú iniciar."

"Há duas palavras que abrem muitas portas: PUXE e EMPURRE."

"Não tomo café porque penso em ti. Não almoço porque penso em ti. Não janto porque penso em ti. Não durmo porque estou a morrer de fome."

"Se não queres trabalhar, vais ter de trabalhar, para ganhares dinheiro suficiente para depois não trabalhares."

"O diccionário é o único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho."

"Minto. Se estou mesmo a mentir, então estou a dizer a verdade."

quinta-feira, abril 06, 2006

Naufrágio

O silêncio quebra-se junto ao cais.
Ali jaz o naufrágio.
Conduzido pelo volante da tragédia.
Arranhado pela maré.
A barca dissolve-se.
Vergada na proa.
Esmagada no convés.
Moída pelo sal salgado do mar salgado.
Na vertical.
Rumo às entranhas do Adamastor.

segunda-feira, abril 03, 2006

Passeio

Vou-me lembrando daquele passeio.
Pedalando por um caminho improvisado.
Decalcando a estrada até ti.
Magoando os ladrilhos da berma.
Deixando as marcas dos pneus na areia.

Chego a tua casa, molhado do suor.
A primeira coisa que peço é um copo de água.
Depois aproveitamos o bocadinho.
Eu encontro uma palavra, tu outra.
Brincamos com os dedos e os braços.
Fazemos cócegas.

Mais um dia passou.
Contigo.

domingo, abril 02, 2006

Salvação do amor

Na praia, de pés descalços.
Ao longe, estás embaciada pela distância.
Derretes o amor pelas mãos.
Vestes uma dor que não se sente.
Escondes a raiva da saudade.
Trazes um ar do que acabou.
As ondas tocam uma sinfonia azeda.
Sangram sopros do céu quente.
Neste dia tão transparente e cinzento disseste-me o mais belo.
Sem palavras, contaste-me a cor dos teus olhos.
Tocaste uma canção de embalar os meus sentidos.
O vazio preencheu-se no silêncio.
E beijaste-me.
Arrepiei-me.
Morri de amor.
E o bem trouxe o sofrimento.
Avançaste para o meu corpo estendido.
Foste comigo.
Atravessámos o rio do paraíso.
Juntos.