Passa a palavra

quarta-feira, agosto 30, 2006

Vertigens


Subo os degraus
Paralelos ao corrimão escorregadio

Subo...
Enquanto os poros da minha pele
Se aliviam de líquido
De suor frio
A tremer e a remeter
Para um alto pontiagudo

Já a meio
Parecem agulhas aguçadas
Espetadas nas mãos e nos pés
Depois ata-se o nó na faringe

Lá em cima
Onde não respiro
Onde inspiro
Sílabas com sabor a medo
O medo das alturas

E em alturas
De vista larga e funda
Tapam-se-me os olhos de terror
Apoiado num muro rijo
E eu sinto que é de esponja

Lá em cima
Onde o chão é mais alto

sábado, agosto 26, 2006

Tem dias...

Mais um dia
Outro sol
Que subiu e desceu

Mais uma cama despida
E vestida outra vez

Mais umas horas
Mordidas

Mais um almoço
E outra vez os pratos sujos
Depois limpos

E a noite
Que se senta nas escadas
Ao eco das portas fechadas
Do "hall" oco
Dos vizinhos
E das plantas

Tem dias
Em que só vivo de noite

quarta-feira, agosto 23, 2006

De tarde

De verde, a relva
De vidro, o céu
De chocolate, as árvores
De espinhos, o cabelo
De água, a boca
De espuma, as mãos
De doce, a voz
De branco, a roupa
De fogo, o corpo
De tarde, nós

sexta-feira, agosto 18, 2006

Silêncio

Esbraceja a mesa
Sobre a boca da ceia
De talheres envelhecidos
Corroídos
De pratos e copos
Toscos

E de refeição afeiçoada
De tarde traçada
De risco negro

Ondula à tardinha
Esta metáfora
De tudo o que é silêncio

quinta-feira, agosto 17, 2006

Chuva de Agosto


Uma mão cheia de ameixas
Outra, de Outono

As folhas, de castanho derretido
E molhadas do suor das nuvens
Irrequietas no asfalto vidrado

Uma mordidela, outra
E depois o caroço desfiado
De sumo roxo

A tua pele

A tua pele transpira
Como uma montanha
A sangrar o verde das árvores

A tua pele...
Para colimar o meu corpo ao teu
Dois desvairados, loucos
Numa tanta paixão

A tua pele pálida
Embai este desejo apagado

A tua pele não é pele, é seda

sexta-feira, agosto 11, 2006

Com fuso



Dois quadrados redondos
Uma esfera bicuda
Um brilho fosco
Um elástico convergente
Água queimada
Hipérboles exageradas

Riscos poéticos
Poemas riscados

quinta-feira, agosto 10, 2006

Saudades...


Congelou o relógio
As chaves que abrem o tempo
O diário que se repete
As letras cruas
O abafo preso
A voz apertada
O sorriso pesado
O ferro esfolado
Congelou o ponteiro

quarta-feira, agosto 09, 2006

Ora nem mais!

Ping, pong, ping, pong...

segunda-feira, agosto 07, 2006

In(ferno) chamas

(Pintado por: Daniel Simões)


O chão queima
Junto à arvore desapertada
E carregada de negro
E calçada com cinzas
Vai esvoaçando
Ao som do remoinho diluído

É triste quando se destrói o que nos dá o que preciamos para viver.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Se tudo fosse tão fácil como nos filmes, aquele beijo teria um violino de fundo, as pessoas pereceriam bailarinas, os cafés falariam ao rio e os vasos às pontes.
Se tudo fosse tão fácil como nos filmes, o nosso amor... não seria real.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Tonturas

No poste caiu o escuro
No escuro, o parafuso
Ensaiando um ruído longo
Com o eco fino
Contra as paredes magras
De uma rua metálica

terça-feira, agosto 01, 2006

Uma

Apaguei as cinzas do cigarro
Com a sola suja
Contra o chão molhado e cinzento
Numa vontade de pisar o resto
Que sobra de ti
No alvor da manhã fria

E este grito
Nasce nas cordas
E refugia-se nos acordes
Num tom de agudo embaciado

Corto o passado
Em réplicas negras
Com uma guitarra guardada
No canto

Nem estou presente
Nem esquecido de ti
Estou amorfo
Como uma pedra
Que não salpica no rio

Na bruma
Do mar dos teus olhos
Deixei que o tempo nos arrastasse
Num bote de paixão e ódio
Estiolando a face áspera

Sofismaste aquele beijo
Com essa boca bruta


Letra para uma suposta música que o Cláudio irá compor.