Passa a palavra

quinta-feira, setembro 28, 2006

Beija-me

(Foto: Daniel Simões)


Enceta este beijo
E eu alijo deste barco
A retórica morna

quarta-feira, setembro 27, 2006

Não

Não deixes que os nossos dias sejam um átimo
Que não sejam bivaques soltos na areia

Não deixes que a tua boca seja ciosa à minha
Que não se beijem para abolir só o corpo

Não queria que deixasses o recado em branco
Que não escrevas em desalento

Não queria que me deixasses
Só por um deixar de fazer

Não deixes infirmar
Que eu não deixo que deixes de querer

terça-feira, setembro 26, 2006

Quadro

E o sol batia-me na face
Furando a janela do autocarro
Naquele bocado de tarde
Que parecia madrugada

Na linha que separava
As casas negras do mar de fogo
Estavas Tu, suavemente
Adivinhando a cor do poente

E os potes de tinta
E pincéis desfiados
Derramados sobre o céu

Demolidos pelos teus dedos
Cruzados de arte
De riscos ácidos, amargos, doces

E o sol espalhado na janela
E no rosto
E Tu, no horizonte
Pintando uma página de amor

quarta-feira, setembro 20, 2006

"Paixúmor"

(Foto: Daniel Simões)


Cheiro
Folgo
Aroma
Saliva
Toque
Mãos
Aperto
Unhas
Sangue
Pele
Suor
Pés
Coxas
Seio
Boca
Paixão
Pecado?
Não
Luxúria?
Talvez
Amor?
Sim

segunda-feira, setembro 18, 2006

Fecho

(Foto: Daniel Simões)


Quando o céu deixar
de ser alto

Quando o cheiro do alcatrão fresco
não souber mais a pastilha de morango

Quando o vento deixar
de ser sopro

Quando o reflexo na janela
não for mais ilusão

Quando a terra deixar
de ser mãe

Quando a canção da minha vida
não quiser mais endoidecer-me

Quando a tua voz deixar
de ser chama

Quando a roupa suja
não for mais desinteresse

Quando a palavra deixar
de ser espanto

Quando o poeta
não for mais fascínio

Quando a morte deixar
der ser da vida

E quando a vida
não for mais para a morte

Quando isto,
tudo fecha
como um galho
de ferro ferrugento
contra a pedra
açucarada

terça-feira, setembro 12, 2006

De novo

De novo as palavras
A caneta sem cor
De novo as pedras
Soltas de bolor

De novo o sol e o vidro
A cama por fazer
De novo à janela o cedro
Laranja, vivo, a ferver

De novo a rua pintada
Os passeios e a luz punida
De novo a música tocada
E a chuva na avenida

De novo o corredor grosso
As paredes enceradas
De novo o fumo no poço
E o chão de linhas traçadas

De novo a paragem quieta
As placas de publicidade
De novo a gente incompleta
Os bancos sem idade

De novo os dedos
A boca, o peito
De novo os beijos quedos
E o rosto sem jeito